
Almeno Gonçalves cedo percebeu que queria ser actor, mas em miúdo sonhava ordenar-se padre, atraído pelo altruísmo da Igreja.
É verdade que sonhava ser padre?
[Risos] É verdade. Era miúdo. Eu nasci numa aldeia do concelho de Cabeceiras de Basto e vivi sempre em Braga, uma cidade muito religiosa e, naturalmente, fui influenciado por isso.
Teve uma educação católica?
Profundamente católica. Fiz as comunhões todas.
E hoje é católico?
Tenho muitas dúvidas. Sinto que há uma ‘décalage’ entre a teoria e a prática religiosa.
E foi nas festas da catequese que começou a representar?
Sim, comecei a ganhar gosto pelo teatro. Tinha amigos que representavam, mas ainda me interessava o desporto. Mais tarde, quando fui para o liceu, a minha professora de História é que foi determinante, porque me escolheu para fazer parte da peça ‘O Ganso de Ouro’. Foi a primeira vez que representei. Tinha 12 anos e fiquei apaixonadíssimo.
Gostou dos aplausos, de viver outras vidas?
Gostei da ideia de espectáculo. Podermos partilhar experiências de vida, da pouca vida que tínhamos. Poder estar com as pessoas por um objectivo, o que também tem muito a ver com a parte desportiva. Os desportos que pratiquei foram colectivos: andebol e também futebol.
Gosta de trabalhar em grupo?
Muito. Gosto dessa ideia. E foi o que me fez gostar do teatro.
E como é que uma família católica aceita a sua profissão?
Pois… Não aceitou muito bem. Inicialmente era uma brincadeira de miúdos. Achavam que ia passar. Até ao dia em que fui convidado a integrar uma companhia profissional, a CENA. E tive de decidir. Tinha 19 anos.
Já tinha completado o liceu?
Já, e a ideia era ir para a faculdade tirar um curso. Mas eu queria mesmo fazer teatro. Os meus esforços eram nesse sentido. E com 20 anos vim para Lisboa.
Pode dizer-se que sonhou ser padre pelo espectáculo a que assistia quando ia à missa?
Era um espectáculo fantástico. A igreja onde eu ia tinha uma banda de música moderna, já com guitarras eléctricas, trompetes… E isso era estimulante, a igreja ficava à cunha… Mas eram as questões da solidariedade, de algum altruísmo, que me motivavam. Ajudar os outros dá-me muito prazer. Acredito na solidariedade e na partilha.
São as emoções que o levam a ser solidário?
São. De alguma forma, não há muita racionalidade nisto. É um ímpeto qualquer interior que, perante uma injustiça ou qualquer coisa, me faz reagir. E isso também é subjectivo. O que é que é justo e o que é que não é justo?
É impulsivo?
Sou. E tenho de me controlar porque é um dos meus aspectos negativos.
Já se arrependeu de alguma coisa?
Não, porque acredito que quando sou impulsivo é porque acredito mesmo nas coisas.
“TENHO MEDO DO FUTURO. NÃO SEI SE É A IDADE”
Está mais magro…
Fiz uma dietazinha. E comecei a ter mais cuidado com a alimentação.
Tem hobbies?
Tenho. Jardinagem.
E medos?
Tenho medo de muitas coisas. Mas essencialmente tenho medo do futuro. Não sei se é a idade, acho que as coisas não estão fáceis para os portugueses em geral e para a nossa profissão em particular.
Estamos a falar de questões financeiras?
E não só. Mesmo da ocupação das pessoas. Se deixam de trabalhar, de fazer aquilo para que se prepararam, então fazem o quê?
Esses receios fazem de si um homem cauteloso?
Não muito. Eu penso no futuro, mas rapidamente também me esqueço, porque o presente é tão forte, intenso…
“APAIXONÁMO-NOS E ACONTECEU”
Diz que é um homem de paixões. Vive há cinco anos com a actriz Patrícia Pinheiro, que é muito mais nova…
Mas não são 33 anos de diferença como já disseram. São 27. Apaixonámo-nos e aconteceu. E só depois é que pensámos…
A diferença de idades não interessa?
Não interessa e vamos seguir com a nossa vida, porque gostamos de estar juntos, porque gostamos um do outro.
Gostava de ter mais filhos?
Não é uma questão que se ponha, mas também não descarto. Até agora, não senti necessidade.
Mas diz que a Francisca [filha da relação que teve com Rita Salema] é a melhor coisa do Mundo.
É a melhor coisa. Mas eu tenho uma vida muito preenchida, e a família sofre um bocadinho com isso, com o meu envolvimento na profissão.
Facilita ter uma relação com uma actriz?
Sim. Há compreensão, temos uma relação fantástica. Com a Rita, temos de nos dividir para estarmos presentes. Ela é uma mãe extraordinária.
PERFIL
Actor bem conhecido dos portugueses, que ainda o vêem na novela ‘Remédio Santo’ (TVI), Almeno Gonçalves foi fundador de três grupos de teatro em Braga, distrito onde nasceu. Aos 20 anos, rumou a Lisboa para se formar em Representação, na Comuna, onde esteve 11 anos. Passou pelo TEC, D. Maria II e Teatro Aberto. Tem uma filha com 19 anos.